O que a Mangueira teve a nos dizer?

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O Carnaval é uma festa que chama atenção de muitos, inclusive internacionalmente. O vínculo do samba com setor mais populares sempre foi muito próximo, compondo a realidade de diversas comunidades. Uma das comemorações que mais possuem fama no país é o desfile das Escolas na Sapucaí. No ano de 2019, a Estação Primeira de Mangueira consagrou-se campeã pela vigésima vez do grupo especial do Rio de Janeiro com um enredo que se ressaltou muito. Mas afinal, o que a Mangueira teve a nos dizer?

Com o enredo “História Para Ninar Gente Grande”, a Mangueira se dispôs a contar, segundo o carnavalesco da Escola Leandro Vieira, “a história que a história não conta”, dando espaço e voz para diversos grupos marginalizados das narrativas oficiais. A Mangueira veio determinada a contar a história do Brasil através de um prisma de minorias sociais que passaram por processos de violência em diversos momentos desde a construção do país.

Com um “Brasil que não está nos retratos”, a Mangueira primeiramente se propôs a tratar do “descobrimento” como uma invasão a terras indígenas, que levou ao extermínio dessas populações nativas. Além disso, a Escola também veio tratando de figuras importantes para a luta escrava no país, como Dandara dos Palmares, Francisco José do Nascimento (conhecido como “Dragão do Mar”) e Luísa Mahin.

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Ainda sobre escravidão, um dos versos do samba-enredo chega a afirmar “Não veio do céu / Nem das mãos de Isabel”, ou seja, a liberdade teria sido fruto de uma luta de resistência dos próprios negros e não um “presente” da Princesa Isabel. A Escola entrou na Avenida, inclusive, com um carro alegórico com a figura de Isabel pisando em corpos ensanguentados.

Ainda sobre essas figuras nacionais tidas como “heróis”, a Escola veio tratando sobre como diversos desses possuem a responsabilidade de diversas mortes populares. Na Avenida, o mesmo carro já citado apresentava a figura de Duque de Caxias – um dos patronos do exército brasileiro – também pisando em pilhas de corpos, pois ele teria sido responsável pela pacificação do Império. No entanto, essa mesma narrativa oficial esconde de que maneira essa paz concretizou-se: assassinando mulheres, negros e crianças.

Alegoria do duque de Caxias no desfile da Mangueira, atrás dele, um livro gigante que o apresentava pelo seu apelido recorrente na história oficial, O Pacificador

Além disso, a Mangueira também veio com a frase “Ditadura Assassina” na Avenida, ressaltando as vidas assassinadas pelo regime ditatorial brasileiro. Um dos versos do samba chega a afirmar “Salve os caboclos de julho / Quem foi de aço nos anos de chumbo”, fazendo referência ao período pós-AI5 que ficou conhecido como “Anos de Chumbo” devido a institucionalização da tortura.

A valorização das mulheres também enriqueceu a Escola. Durante o desfile, foi a primeira vez na história que apenas mulheres foram responsáveis pela locomoção dos carros alegóricos. Ademais, no final a Estação Primeira de Mangueira veio enaltecendo a figura da vereadora assassinada Marielle Franco, como um ícone de resistência feminina, negra, popular e com uma bandeira do Brasil diferenciada.

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Sem dúvidas, a letra do samba-enredo e o que ele tenta nos contar pode te ajudar bastante na construção de um repertório cultural na realização do ENEM no final do ano. A citação do desfile ou de versos da canção trazem diversos debates atuais que podem abranger diversos temas. Confira o samba:

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