A MPB durante a ditadura civil-militar

A música como um importante meio cultural de resistência durante o período ditatorial

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Postado: 17 de agosto, 2020
MPB

A Música Popular Brasileira (MPB) sempre foi um dos instrumentos de identidade nacional. Durante o período ditatorial brasileiro (1964-1985), a produção artística adotou certas características fruto exatamente das imposições que o cenário autoritário de então impunha. No entanto, isso não anulou o caráter crítico da produção musical no país.

Algumas vozes e personalidades foram imortalizadas durante as décadas de 1960, 1970 e 1980. Alguns cantores utilizavam sua personalidade artística para também adotar uma postura política. As letras críticas, desafiadoras e que denunciavam a situação brasileira marcaram a trajetória de tantos cantores e compositores, como Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Elis Regina, Milton Nascimento, Geraldo Vandré, entre diversos outros.

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Nos primeiros anos de regime, as denúncias sociais e às medidas anti-democráticas marcaram a produção musical. O aumento da miserabilidade com o regime, devido a alguns programas de contenção econômica como o PAEG – Programa de Ação Econômica do Governo – gerou canções como “Pedro Pedreiro” de Chico Buarque:

Manhã parece carece de esperar também / Para o bem de quem tem bem / De quem não tem vintém / Pedro pedreiro tá esperando a morte / Ou esperando o dia de voltar pro Norte / Pedro não sabe, mas talvez no fundo / Espere alguma coisa mais linda que o mundo / Maior do que o mar / Mas pra que sonhar se dá / Um desespero de esperar demais / Pedro pedreiro quer voltar atrás / Quer ser pedreiro, pobre e nada mais / Sem ficar esperando, esperando, esperando

Com a instituição do AI-5 (1968), a crítica musical precisou se maquiar para passar pela censura prévia imposta pelo regime. Músicas de duplo sentido – como “Cálice” de Gilberto Gil e Chico Buarque, fazendo referência ao verbo “calar-se” – tentavam driblar a ditadura e seus censores. Diversos cantores adotavam pseudônimos para esconder sua identidade – a de alguns já muito perseguida.

O final da década de 1960 também protagonizou a emergência da Tropicália, um movimento artístico que propunha uma inovação musical a partir da mesclagem de manifestações brasileiras com algumas vanguardas europeias à época. A mistura da MPB com o Rock’n Roll foi uma das marcas desse sincretismo cultural. Nomes como o de Caetano Veloso subvertiam o padrão tradicionalista da população brasileira.

Com a crise do regime no final da década de 1970 e o processo de reabertura na década de 1980, a revogação do AI-5 abriu espaço para manifestações mais diretas e abertas aos resquícios do regime. Uma das músicas que marcou esse processo e que se tornou uma espécie de hino democrático no início dos anos 1980 foi “Pra não dizer que não falei das flores” de Geraldo Vandré.

Pelos campos ha fome em grandes plantações
Pelas ruas marchando indecisos cordões
Ainda fazem da flor seu mais forte refrão
E acreditam nas flores vencendo o canhão
Vem vamos embora que esperar não e saber
Quem sabe faz a hora não espera acontecer

O perfil crítico da MPB não ficou restrito como uma marca de resistência cultural ao regime ditatorial brasileiro. Até hoje, com o fortalecimento de novos gêneros, como o funk e o rap, a produção musical ainda é um meio de denúncia. Muitos desses cantores citados permanecem em ativa até os dias atuais e, somadas a essas vozes, diversas outras compõe uma das marcas do conceito de brasilidade.