Primeiro dia do ENEM 2018: comentários sobre a prova

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A primeira aplicação da prova do ENEM aconteceu no dia 4 de novembro e a prova surpreendeu alguns alunos, já outros, nem tanto. Nós resolvemos conversar com os professores do QG do ENEM, de cada área de conhecimento, e perguntá-los: Para você, como foi a prova do ENEM 2018?

Confira o que cada um disse:

Professor Márcio Branco, de História:

A prova de 2018 manteve a tendência dos últimos anos, ou seja, aprofundou a necessidade de o candidato possuir conteúdo para resolver as questões e, portanto, o número de acertos frente aos anos anteriores deve diminuir. No total, tivemos 18 questões da disciplina e, também mantendo a tendência, História do Brasil foi mais recorrente do que História Geral. A grande novidade da prova foi a questão sobre a Revolta da Chibata. O tema, contudo, apesar de novo, não pode ser visto como uma ruptura frente aos exames anteriores nos quais os movimentos sociais na República Oligárquica, e na República como um todo, foram recorrentes. No mais, abertura política; crise do populismo; movimento negro estadunidense etc., eram pontos por nós esperados. QGniano, saiba que a prova foi difícil!

Professor Mauricio Novaes, de Geografia:

Seguindo uma tendência das últimas edições do ENEM, a prova de Geografia veio novamente com uma necessidade de conteúdos básicos por parte dos candidatos para que a grande maioria das questões fossem respondidas. Destaque novamente para a Geografia Física, que dessa vez privilegiou o tema “Clima”, questões com pelo menos duas alternativas para os candidatos optarem pela que atendia especificamente ao comando do enunciado e, pensando em TRI, uma quatro questões consideradas mais difíceis.

Professor Diego Dias, de Linguagens:

Uma prova não muito diferente dos anos anteriores. O teor gramatical ficou para segundo plano. Foram 45 questões de análise do texto, lembrando que interpretar não é a mesma coisa que analisar. Havia uma carga muito subjetiva, tanto das questões quanto das opções. O aluno que soube analisar o texto, observar o título e a fonte, e que teve atenção ao enunciado, que a gente chama de norteador, eram candidatos que estavam um passo à frente. O texto não verbal ou o texto hibrido, que estavam na prova, contribuiu demais pra prova de Linguagens.

No aspecto temático, foi uma prova linda, que falou sobre o papel da mulher, o linguajar que é falado por gays e travestis, trazendo representatividade, trouxe a linguagem corporal, uma abordagem sobre a linguagem digital, ou seja, uma prova extremamente viva, atual e bastante feliz. Vale ressaltar a objetividade dos textos subjetivos que envolviam o caráter literário da prova. Se o aluno sabia analisar friamente aquele texto e chegasse na opção que mais se adequava ao texto norte (o enunciado), o aluno certamente mandou bem! Os pontos de destaque foram a relevância temática, a configuração de imagens e principalmente a atenção redobrada de maneira objetiva ao enunciado e a opção correta.

Professor Daniel Sanches, de Inglês:

A prova de inglês desse ano continuou a apresentar características similares a anos anteriores, como variada tipologia textual com aparição de poema, cartum, artigo jornalístico. No entanto, algumas surpresas surgiram. O uso de dois textos para uma questão é novidade bem como o uso de um texto literário de autoria relevante para a literatura mundial que é George Orwell.

Quanto aos temas abordados, as questões sociais continuam a ser pauta das questões. A prova traz novamente o tema dos moradores de rua, a educação e a própria língua inglesa e suas variantes ao redor do mundo. Apesar de ter trazido um cartum, que demonstra a característica da prova em querer que o candidato seja capaz de associar linguagem verbal e não verbal, a imagem do cartum foi de pouca influência para interpretação da questão. Dois temas de destaque foram o estado totalitário abordado pelo texto 1984 e o preconceito/consciência linguísticos demonstrada no poema de autoria indiana. Quanto ao peso de língua, o conhecimento de inglês exigido do candidato não era alto. Os textos não apresentaram linguagem rebuscada ou incomum, tampouco expressões idiomáticas marcantes.

Professora Renata Duran, de Espanhol:

A prova de espanhol do Enem 2018 veio dentro do esperado e bem parecida com anos anteriores. Tínhamos a presença de cinco textos verbais, um para cada questão, mostrando e reafirmando que a prova é interpretativa. Chama atenção o fato de não ter nenhum texto não verbal na prova.

Temas importantes foram mencionados,  como a solidariedade e manifestações, a diversidade linguística aparecendo para mostrar a relação entre as línguas e a convivência delas dentro de regiões, contamos também com a presença de autores importantes e ilustres que aparecem recorrente nas provas do Enem, Eduardo Galeano e Gabriel García Márquez, uso da expressão para ajudar a responder à questão, mas o candidato consegue chegar a resposta também pelo viés interpretativo e, para finalizar matéria de um jornal importante “el país”, reafirmando a importância de ler jornais e acessar sites para estar conectado com o mundo.

Professor Raphael Torres, de Redação:

O tema teve um tamanho que dificilmente se viu antes, cheio de palavra chave, e isso obviamente torna a abordagem bem mais restrita.  É um tema com imensa probabilidade de tangenciamento. O que também chamou a atenção é a falta da restrição “no Brasil”, “na sociedade brasileira”, que é algo que também está muito presente nos temas ao longo do tempo. Outra coisa super importante, é que o tema remete muito a fatos contemporâneos e isso, muito provavelmente, pode fazer o candidato se perder devido a tamanha contaminação do que está acontecendo agora, na atualidade.

É um tema, que exigia do candidato muito mais do que a compreensão do que é tecnologia. A questão é muito mais comportamental do que tecnológica. O candidato poderia associar os algoritmos as fake News, que manipulam o comportamento. Poderia também, falar do Poder Público, que em diversos países tiveram como cobrar das redes sociais sobre a circulação das informações falsas. Isso não ocorreu no Brasil. E ainda, poderia ser citada a educação critica do país, que faz com que sejamos manipulados com mais facilidade.

Professor Paulo Andrade, de Filosofia:

As questões de Filosofia da prova de humanas apresentaram um modelo muito semelhante às edições anteriores. Houve a manutenção de um direcionamento às questões mais conteudistas e cada vez menos interpretativas; sentiu-se a falta de nomes como Platão, Aristóteles e Descartes por um lado e, por outro, a prova trouxe mais uma vez questões de clássicos da política com os contratualistas Hobbes e Rousseau.
O ponto mais curioso da edição 2018 foi o retorno da filosofia medieval mas dessa vez, não com um autor, mas com dois. Ou seja, DUAS questões de Filosofia Medieval (Agostinho e Tomás de Aquino) foram as únicas surpresas da prova.
De uma maneira panorâmica, as questões de Filosofia estavam em total harmonia com o restante da prova, com as questões de História, Sociologia, Geografia e até mesmo Linguagens.
Durante a correção do primeiro dia de provas, nossa equipe de professores estava no Jornal O Globo e contou pra vocês um pouco mais de cada prova! Confira o vídeo: