La Casa de Papel e Maquiavel

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La Casa de Papel

La Casa de Papel lançou sua terceira temporada recentemente e, como esperado, foi um sucesso internacional. A gangue de Dalí liderada pelo Professor nos mostra um roteiro espetacular e bastante criativo, mesclando histórias imersivas de personagens profundos com os grandes assaltos. Mas por de trás das câmeras e nas entrelinhas, lá no século XVI, um dos pais da Ciência Política moderna já formulava ideias muito exploradas pelos produtores da série na célebre obra O Príncipe de Nicolau Maquiavel.

Um dos principais pontos para Maquiavel que permeia a obra como um todo é a relação entre virtú e fortuna. Esse primeiro conceito, para o autor, faz referência ao saber lidar com as situações que se apresentam: ter virtude. Maquiavel estaria orgulhoso dos roteiristas de La Casa de Papel. A figura do Professor – a cabeça pensante do grupo – planeja cada movimento com muito detalhismo e a série faz questão de mostrar cada passo do planejamento.

“Ahh, mas é impressionante como eles são muito sortudos também nos assaltos”. Calma, calma, calma. Eles estão apenas seguindo os conselhos de Maquiavel. Para ele, apenas ter virtú não te tornará um eficiente Príncipe (líder), pois nem sempre o melhor vence devido às aleatoriedades da história. Maquiavel afirma que cabe ao Príncipe ter também fortuna. Nada de dinheiro, fortuna para o cientista político é saber lidar com o acaso.

Melhor ser temido ou amado? Esse é um dos grandes questionamentos da obra de Maquiavel, mas sem problemas! Ele apresenta uma solução e os roteiristas da série fizeram direitinho o dever de casa e leram tudo do Príncipe.

Segundo Maquiavel, apenas ser amado não te trará estabilidade, pois os homens são ingratos e esse é um sentimento inconstante. No entanto, ele continua e fala que ser apenas temido também não te trará paz ao dormir, pois se fores um líder muito cruel, irão se levantar contra você em uma hora ou outra. Seja temido e amado ao mesmo tempo!

Agora olhemos para a relação do grupo do Professor com os reféns… Fazem questão de gerar medo, mas também, buscam, por vezes, mostrar que não são os malvados da história – inclusive dando conselhos amorosos a um refém.

Vamos retornar a Maquiavel… É muito difícil ser amado e temido ao mesmo tempo, não acham? Maquiavel reconhece isso e afirma “se tiver que escolher, escolha ser temido”. Segundo o autor, depender do amor é depender do sentimento de homens e ele não confia nem um pouco nos homens; os considera como dissimulados e ingratos. Por isso, quando a gangue do professor se vê diante de uma adversidade, não hesitam em falar mais grosso.

(Sem spoiler) Agora na terceira temporada, o grupo se reúne para realizar um ato. No entanto, a partir de então, eles têm algo a mais. Agora, eles já partem do princípio que aprenderam com os erros do assalto a Casa da Moeda da Espanha. Maquiavel estaria orgulhoso novamente, pois para o autor, um dos pontos principais para seres um bom líder é aprender com os erros que a História te ensina.

Produtores, roteirista e diretores de La Casa de Papel fizeram direitinho o dever de casa e leram O Príncipe de uma maneira brilhante a ser traduzida para os dias atuais em situações muito criativas. Todo esse embasamento na obra de Maquiavel faz com que a série seja muito mais densa e interessante. E agora? Abriu outros olhos para a série?