Etnocentrismo vs Relativismo

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A prova de Ciências Humanas no ENEM costuma abordar, além das matérias previstas, uma exigência crítica e interpretativa dos alunos. Nesse quesito, questões como aspectos culturais e representações sociais aparecem com certa frequência no exame, muitas vezes, tangenciando a Antropologia. Um dos principais tópicos a serem tratados é o relativismo em contraposição ao etnocentrismo.

No século XIX, com o desenvolvimento do capitalismo imperialista, as nações europeias intensificaram o processo de ocupação de novos territórios, principalmente na África e Ásia. Nesse novo contato com povos com diferentes organizações sociais, a disparidade entre os hábitos culturais levou esse homem europeu a se questionar “Que tipo de cultura é essa?”. Esse interesse primário desenvolveu uma visão hierárquica a respeito do tema, ou seja, de início, os estudiosos começaram a desenvolver teorias científicas – hoje, comprovadamente sem embasamento – para afirmar a superioridade europeia frente às outras.

A conceituação de inferioridade e superioridade depende da existência de um padrão de civilização, que no caso, seria o padrão europeu, tendo como base o perfil branco, cristão, patriarcal e capitalista. Essa característica é conhecida como etnocentrismo, ou seja, estipular como centro (padrão) uma cultura que as demais devem tomar como referência.

Em resposta a esse etnocentrismo do século XIX, que possuía raízes históricas bem mais antigas, surge uma ciência denominada Antropologia. Por sua vez, essa buscava desenvolver uma prática conceituada de relativismo cultural. Ao observar uma cultura de determinado povo, deve-se encará-la como diferente, e não como inferior ou superior, pois segundo a corrente relativista, não existe um padrão de sociedade pautado no certo ou errado.

No entanto, essas temáticas não se limitam apenas a cortes temporais de séculos passados. O contato com o diferente faz até hoje com que pessoas observem outras culturas e tentem subjugá-las, tomando como padrão os seus próprios hábitos de vida. Frases como “Eles são um povo atrasado” ou “Por que eles não se adequam?” denotam um princípio básico do etnocentrismo: a existência de povos vivendo em temporalidades diferentes que compartilham o mesmo espaço – a ideia de atraso e progresso convivendo.

Já em contrapartida, a ideia do relativismo preza por um respeito cultural, que aceite e preze pela heterogeneidade dos costumes e valores sociais. Por fim, no domingo de ENEM tente levar em mente essa compreensão cultural que a diversidade rompe com a ideia hierárquica de se criar um padrão para determinar o grau de civilização.

QUESTÃO ENEM

Michel Eyquem de Montaigne (1533-1592) compara, nos trechos, as guerras das sociedades Tupinambá com as chamadas “guerras de religião” dos franceses que, na segunda metade do século XVI, opunham católicos e protestantes.

“(…) não vejo nada de bárbaro ou selvagem no que dizem daqueles povos; e, na verdade, cada qual considera bárbaro o que não se pratica em sua terra. (…) Não me parece excessivo julgar bárbaros tais atos de crueldade [o canibalismo], mas que o fato de condenar tais defeitos não nos leve à cegueira acerca dos nossos. Estimo que é mais bárbaro comer um homem vivo do que o comer depois de morto; e é pior esquartejar um homem entre suplícios e tormentos e o queimar aos poucos, ou entregá-lo a cães e porcos, a pretexto de devoção e fé, como não somente o lemos mas vimos ocorrer entre vizinhos nossos conterrâneos; e isso em verdade é bem mais grave do que assar e comer um homem previamente executado. (…) Podemos portanto qualificar esses povos como bárbaros em dando apenas ouvidos à inteligência, mas nunca se compararmos a nós mesmos, que os excedemos em toda sorte de barbaridades.”

(MONTAIGNE, Michel Eyquem de. Ensaios. São Paulo: Nova Cultural, 1984.)

 

De acordo com o texto, pode-se afirmar que, para Montaigne,

a) a ideia de relativismo cultural baseia-se na hipótese da origem única do gênero humano e da sua religião.

b) a diferença de costumes não constitui um critério válido para julgar as diferentes sociedades.

c) os indígenas são mais bárbaros do que os europeus, pois não conhecem a virtude cristã da piedade.

d) a barbárie é um comportamento social que pressupõe a ausência de uma cultura civilizada e racional.

e) a ingenuidade dos indígenas equivale à racionalidade dos europeus, o que explica que os seus costumes são similares.

 

O gabarito, letra B, trata exatamente da questão do relativismo cultural frente à hierarquização pelo espectro social, típica do viés etnocêntrico.