Construção do nacionalismo brasileiro

O sentimento de identidade brasileiro e seu percurso histórico.

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Ernest Renan, filósofo francês, já no século XIX, afirmava que o nacionalismo é “um plebiscito diário”. A necessidade de reafirmação da noção de pertencimento a certo território demonstra como esse fenômeno é incessante e se dá até hoje.

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O século XIX é a chave para o fortalecimento e consequente consolidação da ideia de nação ao mundo ocidental. No Brasil, observa-se de maneira mais substancial a inicial construção do que é ser brasileiro com a criação do IHGB – Instituto Histórico Geográfico Brasileiro – em 1838. O objetivo dessa instituição era reunir documentos e informações que fossem propiciar o conhecimento a respeito das luzes do passado da pátria.

Essa cronologia nos permite identificar que a construção do Estado e a construção da nação são dois fenômenos independentes. Ou seja, quando o Brasil surge em 1824, a ideia do que é ser brasileiro ainda é muito frágil. O IHGB, portanto, denotava essa tentativa, por parte do Estado imperial, de criar o que é ser brasileiro.

Concomitante aos anos iniciais do IHGB, o Brasil é palco do movimento do Romantismo que se propõe também a pensar o que é ser brasileiro. Para criar-se o “nós” precisaria existir o “eles”. Quem seria, portanto, o “eles”? Os portugueses. A ideia de brasileiro se construiu inicialmente em cima da antítese com o português. Brasileiro é aquele que não é português.

Quem seria o “não-português” mais autêntico para os românticos? O índio. Por isso, essa geração romântica será conhecida em grande parte como “os indianistas”.

A década de 1870 até as iniciais do século XX já viam surgir novos movimentos literários que também pensavam o tema brasilidade e, por trazer essa temática em obras realistas e naturalistas – como em Lima Barreto, Aluísio de Azevedo, Graça Aranha -, esses movimentos acabam não apenas atuando no campo da literatura, mas também no contexto intelectual do período. A Literatura, portanto, era encarada como o espelho da sociedade

O Brasil era O Cortiço de Aluísio de Azevedo; o Brasil era A República do Bruzundanga de Lima Barreto. O brasileiro era Cassí, o malandro em Clara dos Anjos; o brasileiro era Karposo (personagem de Lima Barreto), o aristocrata que se preocupava demais com títulos. A literatura era o espelho da sociedade e seus personagens, o espelho do que é ser brasileiro.

O Romantismo com o índio, passando pelo Realismo com seus malandros, chegamos ao Modernismo. As décadas de 1920/1930 nos trouxeram Macunaíma: o herói sem caráter. Não de caráter ruim, apenas sem nenhum. Esse seria o brasileiro para os modernos da Semana de 1922..

No entanto, um grande marco na década de 1930 revolucionou a maneira de pensar a identidade nacional: “Os Intérpretes do Brasil”, como eram conhecidos os pais da sociologia brasileira. Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Hollanda e Caio Prado Jr (mais os dois primeiros) trazem como contribuição mais fundamental para o debate: a raça. Quais as origens do Brasil? Eles se perguntavam. Saber as raízes daquela sociedade foi para eles saber o que é a brasilidade. “Raízes do Brasil” publicava Sérgio Buarque de Hollanda em 1936, “Casa Grande e Senzala” publicava Freyre em 1933.

O Brasil teria o melhor do negro, o melhor do indígena e o melhor do português, defendia Gilberto Freyre. Em termos históricos e sociológicos, é claramente questionável esse pensamento, porém esses livros eram Ensaios – um gênero literário que permite certa autonomia poética e interpretativa ao autor. Eis a brasilidade sendo desenhada! De maneira questionável… mas desenhada.

Livros, peças, publicações em jornais… algo está estranho. O letramento! Algo muito raro no Brasil, predominantemente analfabeto. E então? A ideia de brasilidade estava sendo realmente construída com todos e para todos?

A resposta para essa pergunta é um pouco complexa. É verdade que toda essa produção literária, de uma maneira ou de outra, percorria a “boa sociedade”, mas ainda na década de 1930, um personagem na história brasileira iria modificar e muito esse cenário cultural: Getúlio Vargas.

É com  Vargas que a ideia de identidade nacional é consolidada de maneira mais concisa. O samba, o Carnaval, o Futebol. Todos, instrumentos que marcavam o brasileiro.

Portanto, o Brasil já formado foi ganhando seus brasileiros durante o seculs XX.