Até quando falaremos em raças?

Leia o texto do professor Márcio Branco sobre raças.

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No ano passado, o site do jornal O Globo publicou uma matéria sobre a “menina judia usada pelos nazistas para propagandear a beleza da raça ariana” (Acesse aqui)

Assim que li a matéria, logo me lembrei da nossa tão amada prova do Enem. Mais especificamente, o texto e a foto publicados no G1 foram me remetendo à Competência 1  (Compreender os elementos culturais que constituem as identidades) e à habilidade 1  (Interpretar historicamente e/ou geograficamente fontes documentais acerca de aspectos da cultura), que compõem a Matriz de Referência usada na concepção das provas de Ciências Humanas.

Será que eu fiz uma elucubração maluca? Acho que não.

Você concorda que a invenção da suposta raça ariana foi um dos pilares do sucesso nazista? Você concorda que os nazistas usaram diferentes mitos a fim de fundamentarem sua doutrina política e social? Você concorda que a força da “identidade ariana” legitimou a invasão de países e até mesmo a tenebrosa “solução final”¹?raças

Sim? Então eu não voei tanto. Basta que você perceba a tal “raça ariana” como uma construção histórica do Estado nazista alemão, produzida com o fim de legitimar um projeto específico de poder, que você estará “interpretando historicamente a construção de identidades”. Exatamente como o Inep exige em suas provas.

Mas, como historiador, eu não posso parar este texto por aqui e deixar de lhes mostrar outro ponto fundamental da reportagem. Foi intuito do seu autor, e também foi ponto de destaque dos leitores do texto, enfatizar o fato de que a manequim usada pelo Ministério da Propaganda do III Reich era judia.

Você também compactua com a perspectiva de que é incrível o próprio Goebbels² não perceber que a criança a ser usada em sua campanha publicitária ariana era judia e, portanto, possuía certos traços característicos? Você também acha um ridículo absurdo tamanha imprecisão oriunda logo de um homem que foi capaz de produzir a imagem pública de Hitler?

Sim? Sim? Mas você não devia! O ponto que lhe deveria gerar estranheza é outro.

Para quem já entendeu minha mensagem, um pedido: corra à janela e grite aos quatro ventos, grite aos quatro cantos: Não há raças humanas! Não há uma raça ariana. Também não há uma raça africana ou uma raça caucasiana! Paremos de discutir sobre hipóteses construídas em premissas falsas. Chega!” Meu sonho, infelizmente ainda distante, é que qualquer discussão sobre supostas aptidões raciais das populações “A” ou “B” fossem interrompidas a priori, com o uso do argumento indubitável da inexistência das raças humanas. Temos que pôr no âmbito do ridículo todos os pressupostos dos que tentam propagar a ideia do “apto” e do “não apto”.

Simples assim.

Desta forma, ao invés de percebermos como é ridículo uma criança judia ser escolhida por Joseph Goebbels para ilustrar a suposta beleza natural ariana, nós precisamos (antes de tudo!), perceber como é ridícula toda e qualquer construção de cunho racialista. É necessário, inclusive, que ressaltemos que o cerne de todas essas construções teóricas é um projeto imperialista no qual um grupo tenta legitimar sua dominação sobre outro. Porque é exatamente este ponto – a legitimação da dominação – que sempre está por trás das teorias supostamente científicas que determinam a inferioridade de um dado povo frente a outro.

Você mesmo pode ir às suas lembranças das aulas de história e corroborar o que afirmo. Como os europeus qualificavam os índios na América? Como a Europa construiu a visão sobre os africanos a serem escravizados e, depois, colonizados? Como as ditas populações centrais liam (e leem) os hábitos e práticas das populações “periféricas”?

Enfim, meus amigos, estão dados os meus recados. Espero voltar a encontrá-los por este blog. Qualquer dúvida ou comentário, vá ao canal do aluno. Te espero.

¹Projeto nazista que consistia em assassinar todos os judeus existentes no planeta.
²Ministro da propaganda Nazista e um dos principais colaboradores de Hitler. Foi um dos ideólogos do Estado totalitário nazista.