Vestibular UERJ: análise do conto de Guimarães Rosa

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O vestibular Uerj passará por algumas mudanças no seu processo seletivo de 2018, que ocorrerá em 2017. A principal alteração, anunciada no início do ano,  foi a volta das leituras obrigatórias. As obras serão distribuídas nos três exames do vestibular 2018:

1º Exame de Qualificação: Primeiras estórias, de João Guimarães Rosa (Contos “A terceira margem do rio” e “O espelho”);

2º Exame de Qualificação: A hora da estrela, de Clarice Lispector;

Exame Discursivo (Prova de Língua Portuguesa Instrumental): Dom Casmurro, de Machado de Assis;

Exame Discursivo (Prova específica de Língua Portuguesa e Literaturas): Morte e vida severina, de João Cabral de Melo Neto, e Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago;

Então, a gente aqui do QG resolveu dar aquela ajudinha para encara essa novidade e trouxemos uma análise do conto “A terceira margem do rio”, do Guimarães Rosa.

VESTIBULAR UERJ: Análise da Obra de Guimarães Rosa.

Vestibular UERJ: análise do conto de Guimarães Rosa

A terceira margem do rio, da obra Primeiras estórias, é o mais famoso e o mais aberto conto de Guimarães Rosa. Este conto é narrado na primeira pessoa, o que permite uma maior proximidade com os personagens.

Tempo: o tempo cronológico corresponde a toda a vida do narrador. As impressões e o amadurecimento do narrador são trabalhados com intensidade dando enfoque ao tempo psicológico.

Espaço: há a presença concreta do rio, caracterizando a imagem rural de sempre. Esse cenário transmite a ideia de magia e transcendentalismo, no ir e vir do rio e da vida. Poético, né?

Personagens: os personagens são: filho (narrador-personagem), pai, mãe, irmã, irmão, tio (irmão da mãe), mestre, Padre, dois soldados e jornalistas. Os personagens, sem nome, podem ser caracterizados como tipos sociais. Por exemplo, a mãe é a responsável pelo comando prático da família.

Recursos de estilo:

– A história segue o estilo típico de Guimarães Rosa. A oralidade é reproduzida na voz do narrador:

“Do que eu mesmo em alembro, ele não figurava mais estúrdio nem mais triste do que os outros, conhecidos nossos (…) Só quieto. Nossa mãe era quem ralhava no diário com a gente.”

– As frases independentes, coordenadas e curtas asseguram um ritmo lento e pausado à leitura.

– A sintaxe é recriada de forma criativa e pode até causar estranheza durante a leitura:

“não fez a alguma recomendação”, “nosso pai se desaparecia para a outra banda, aproava a canoa no brejão, de léguas, que há, por entre juncos e mato, e só ele conhecesse, a palmos, a escuridão, daquele.”

– A repetição também é também está presente na obra: e o rio-rio-rio, o rio sempre fazendo perpétuo.

– Neologismos também formam um recurso expressivo comum ao autor: como “trouxa”, no sentido de comida e roupas e outras palavras pouco comuns: encalcou, entestou etc.

– Figuras de linguagem tornam o lado poético do conto mais marcante como ilustra a gradação: “Cê vai, ocê fique, você nunca volte!“, a antítese “perto e longe de sua família dele“, além do que o próprio caráter metafórico do rio.

Resumo do conto A terceira margem do rio.

O conto A terceira margem do rio, de João Guimarães Rosa, narra a história de um homem que desde o início aderiu ao silêncio. Se afastou de toda e qualquer convivência com a família, preferindo a completa solidão do rio.

O rio sempre teve destaque na imaginação de Guimarães Rosa:
(..) amo os grandes rios, pois são profundos como a alma do homem. Na superfície são muito vivazes e claros, mas nas profundezas são tranquilos e escuros como os sofrimentos dos homens. Amo ainda mais uma coisa de nossos grandes rios: a eternidade. Sim, rio é uma palavra mágica para conjugar a eternidade.
Entrevista com Guimarães Rosa, conduzida por Günter Lorenz no Congresso de Escritores Latino-Americanos, em janeiro de 1965 e publicada em seu livro: Diálogo com a América Latina. São Paulo: E.P.U., 1973.
Acessada no site: www.tirodeletra.com.br/entrevistas/Guimarães Rosa – 1965.htm, p. 10.

 

O narrador-personagem é seu filho que relata as tentativas da família, parentes, vizinhos e conhecidos de estabelecer algum tipo de comunicação com o pai. Todavia, o pai recusa qualquer contato e é tido como desequilibrado por contradizer os padrões normais de comportamento.

A família vai-se habituando com seu abandono e com o passar do tempo, mudam-se da fazenda onde residiam. Somente o filho-narrador permanece motivado pelo desejo de entender os motivos da ausência do pai. Um dia, dirige-se ao rio, grita pelo pai e propõe tomar o seu lugar na canoa. Mediante a concordância dele, foge, apavorado, desistindo da ideia. Sem notícias do pai, passou a sentir remorso por ter fugido e adoeceu.

#FICAADICA PARA O VESTIBULAR UERJ

Exposição: a história é contada pelo filho-narrador, cujo pai se isolou da sociedade e passou a viver sozinho rio abaixo, rio a fora, rio a dentro.

Complicação: a família muda-se da fazenda onde residia, isto é, a irmã casa-se e vai embora, levando a mãe; o irmão também muda-se para outra cidade. Apenas o narrador permanece.

Clímax: apenas o narrador permaneceu para tentar entender os motivados que levaram o pai a se isolar.

Desfecho: o pai diz que aceita trocar de lugar, mas o filho muda de ideia e foge.

Questão de Vestibular

1. (UFRN-RN) O fragmento textual que segue, retirado da narrativa A terceira margem do rio, de João Guimarães Rosa, servirá de base para esta questão.

Sou homem de tristes palavras. De que era que eu tinha tanta, tanta culpa? Se o meu pai, sempre fazendo ausência: e o rio-rio-rio — o rio — pondo perpétuo [grifo nosso]. Eu sofria já o começo da velhice — esta vida era só o demoramento. Eu mesmo tinha achaques, ânsias, cá de baixo, cansaços, perrenguice de reumatismo. E ele? Por quê? Devia de padecer demais.
De tão idoso, não ia, mais dia menos dia, fraquejar o vigor, deixar que a canoa emborcasse, ou que bubuiasse sem pulso, na levada do rio, para se despenhar horas abaixo, em tororoma e no tombo da cachoeira, brava, com o fervimento e morte. Apertava o coração. Ele estava lá, sem a minha tranquilidade. Sou o culpado do que nem sei, de dor em aberto, no meu foro. Soubesse — se as coisas fossem outras. E fui tomando ideia.
ROSA, João Guimarães. Primeiras estórias. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1976.

No quadro do Modernismo literário no Brasil, a obra de Guimarães Rosa destaca-se pela inventividade da criação estética.

a) recriação do mundo sertanejo pela linguagem, a partir da apropriação de recursos da oralidade.
b) aproveitamento de elementos pitorescos da cultura regional que tematizam a visão de mundo simplista do homem sertanejo.
c) resgate de histórias que procedem do universo popular, contadas de modo original, opondo realidade e fantasia.
d) sondagem da natureza universal da existência humana, através de referência a aspectos da religiosidade popular.
e) Todas as afirmativas são corretas.

Gabarito: a.

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