Perambulando com o QG: Catacumbas de Paris

No Perambulando com o QG de hoje, o professor Luiz Ramiro nos conta como as catacumbas podem aparecer no ENEM.

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Ainda em Paris, o Perambulando com o QG penetrou no subsolo da cidade Luz, próximo a uma das saídas da estação de metrô Denfert-Rochereau há a entrada das Catacumbas de Paris…

Catacumba é o lugar em que se deposita o corpo de um defunto, cova, sepulcro, sepultura, túmulo. De fato, trata-se de uma construção subterrânea que serve de sepultura ou ossuário. As Catacumbas de Paris ganharam esse nome em remissão às Catacumbas de Roma, conjunto de galerias e salas escavadas no subsolo para sepultamentos, especialmente as construídas pelos cristãos, em Roma, do século I ao século IV, e ainda usadas como lugar de culto, catequese e refúgio às perseguições. Isso porque até o século IV, o cristianismo não era a religião do Império Romano e seus fiéis eram fortemente perseguidos.

As Catacumbas de Paris estão a 20 metros abaixo do solo, e o conjunto de ossos é de aproximadamente 6 milhões de corpos. Estes foram transferidos no final do século XVIII e na metade do século XIX, na medida em que cemitérios da cidade foram sendo fechados por questões de salubridade. O primeiro cemitério foi o dos Inocentes, que desde o medievo abrigava os mortos da cidade, e em 1785 foi inteiramente transferido para as Catacumbas.

E o ENEM, onde fica no meio desse monte de esqueletos?

O ENEM adota uma perspectiva interdisciplinar nas suas provas. Não basta saber estritamente Física, Química, Geografia, História, de forma desintegrada. É necessário combiná-las. Por isso não é estranho tratarmos aqui de cemitérios.

A antropologia nos ensina que não se sabe até hoje de nenhuma sociedade que não tenha algum tipo de culto aos mortos. As formas de render homenagem a um morto são as mais diversas, desde cremações, crenças de que se tornarão deuses, de que retornarão a viver, e até a de que há uma vida após a morte entre o céu e o inferno, entre outras concepções. Para algumas religiões, como o budismo, segue-se o ritual da cremação do corpo. No cristianismo, por sua vez, a prática é a do sepultamento.catacumbas

Há uma questão política que envolve a história dos cemitérios. Sim, isso mesmo. Observe que pelo menos desde o século VII da era cristã, os cemitérios eram controlados pela Igreja e comumente corpos eram enterrados no solo da própria Igreja ou ao redor. Quem for à Minas Gerais nas igrejas históricas barrocas poderá investigar e encontrará algumas em que pessoas estão sepultadas no solo do próprio local. Enterrar cadáveres nos assoalhos das igrejas era um velho hábito: acreditava-se que ali ficariam junto dos santos sem se afastarem demasiado da presença dos vivos. Mas em nome da saúde pública, o costume foi banido em muitas cidades e a ordem foi a de despejar todos os que estivessem nos assoalhos das igrejas.

O fato é que ainda pode-se encontrar vestígios desse costume em Igrejas antigas, no Brasil e em qualquer outra parte, como essa imagem abaixo de uma igreja medieval em Oxford, Inglaterra.

catacumbas

Com a Revolução Industrial, o amplo aumento da população, a urbanização, várias medidas precisavam ser tomadas para conter doenças infecciosas provocadas pela proximidade entre os cemitérios e as residências, e ,sobretudo, tentando evitar o contato da decomposição dos corpos com a água. Nas cidades, os espaços passaram a ser disputados e a necessidade pública de intervenção sobre eles era cada vez maior.

Diante dessa situação, os governos procuravam cada vez mais assumir a responsabilidade e a administração dos cemitérios. Eis uma das páginas do processo de secularização através dos cemitérios. Ou seja, separando-os das igrejas. Secularizar é retirar o caráter sacro, em outras palavras, significa a transferência do domínio da religião para o domínio do Estado.

Não apenas em Paris, mas em uma série de cidades cemitérios que ficavam em regiões centrais da cidade foram transportados para outras áreas. E, paralelamente, catacumbas, ossuários, bem como novos cemitérios públicos estatais foram construídos. O mais importante no caso da França é o do Père Lachaise, em Paris, no qual o controle total do cemitério já não era da Igreja católica, mas sim do Estado francês.

Os cemitérios podem ser locais para conhecer a trajetória de um lugar. Por exemplo, o Cemitério da Recoleta, em Buenos Aires, dá uma excelente apresentação das famílias mais poderosas e das posições políticas na Argentina. Recomendo esse artigo do professor Christian Lynch para quem tiver curiosidade sobre a história dos cemitérios no Rio de Janeiro (http://insightinteligencia.ig.com.br/?p=334).

As Catacumbas de Paris permanecem intactas até hoje e já foram fontes para romancistas, como Victor Hugo em Les Miserábles, lugar de rituais satânicos e hoje um peculiar ponto turístico da capital da França.

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Luiz Ramiro é bacharel em Ciências Sociais pela UFRJ, tendo feito parte da graduação na Universidade de Paris X - Nanterre (França), e bacharel em Direito pela UFF, mestre em Ciência Política pelo IESP/UERJ. É doutorando em Ciência Política pelo mesmo IESP/UERJ, onde participa de grupo de estudos e pesquisa em Teoria Política e Pensamento Político Brasileiro. Foi monitor de disciplinas na Faculdade de Direito da UFF, bem como de ciência política no IFCS/UFRJ. Foi professor substituto do Departamento de Ciência Política do IFCS/UFRJ e, atualmente, leciona disciplinas na área de sociologia na UERJ e trabalha na tutoria e na coordenação de uma disciplina do curso de Tecnólogo em Segurança Pública e Social da UFF (oferecido em parceria com o CEDERJ).

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