Olympia

Política, esporte e cinema

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O documentário “Olympia”, lançado em 1938, foi dirigido por Leni Riefenstahl e financiado pelo Terceiro Reich. O filme aborda as Olimpíadas de Berlim de 1936, e  é dividido em duas partes: “Ídolos do estádio” e “Vencedores olímpicos”. Em 1948, a obra recebeu a medalha de ouro do Comitê Internacional Olímpico.

Assistindo ao filme, é possível identificar a ideologia “ariana” pela naturalidade das observações eloquentes do narrador para dar dramaticidade às provas. Como por exemplo, na narração da corrida de 800 metros rasos, na qual ele destaca a emulação de “dois corredores negros contra três atletas brancos”, acrescentando que “o favorito é o grande corredor negro Woodruff” e que o italiano Mario Lanzi seria a esperança da Europa. Já no final da corrida, quando os atletas negros Edward O’Brien e John Woodruff estão de fato liderando a prova, o narrador não resiste e pergunta em tom de desespero: “onde está Lanzi?”. Vemos também no filme, Adolf Hitler aplaudindo e vibrando quando os alemães Karl Hein e Erwin Blask ganham as medalhas de ouro e prata na prova de lançamento de martelo. Ironicamente, há uma disputa na prova final do lançamento de disco, em que a Polônia (primeiro país invadido pela Alemanha na Segunda Guerra Mundial), representada pela atleta Wajsówna, perde para a alemã Gisela Mauermeyer.

As derrotas alemãs também são registradas. Exemplo disso, é a emblemática vitória do atleta negro e norte-americano Jesse Owens, na prova do salto a distância, na qual também compete o alemão Lutz Long diante do ditador alemão. Essa é uma das cenas mais marcantes do filme.

Além disso, há o registro de dois brasileiros. Um deles é Ícaro de Castro Melo, na prova de salto em altura, e o outro é Catrambi, na prova de tiro ao alvo. (A ida desses atletas brasileiros e de toda a equipe brasileira às Olimpíadas de Berlim renderia um excelente documentário. Seria um grande resgate da nossa memória e uma homenagem aos atletas que elevaram o nome do Brasil.)

Filme Olympia (1938) – O brasileiro Castro Melo na prova de salto em altura

A grande polêmica em relação a “Olympia” está na impossibilidade de não se vincular o nome da cineasta Leni Riefenstahl ao de Adolf Hitler. A ex-atriz, bailarina e, mais tarde, mergulhadora tornou-se uma produtora e diretora conhecida mundialmente em 1932, após o lançamento filme “A Luz Azul”. Com a nacionalização da produtora UFA pelo Reich, o ministro da propaganda, Joseph Goebbels, via no cinema uma forma de disseminar os ideais nazistas através de cinejornais. A relação entre Hitler e Riefenstahl começou em fevereiro de 1933. Após assistir a um discurso do Führer, Riefenstahl lhe enviou uma carta e ele a convidou para um encontro que resultou no convite para que ela se tornasse a cineasta do partido nazista.  Durante esse período e até o final de sua vida, ela sempre foi acusada de ser simpatizante do regime nazista, ao que ela sempre respondia que se limitava a fazer filmes para eles. Essa relação ambígua alimenta dúvidas até hoje.

 É possível assistir o documentário “Olympia” e apreciá-lo de forma artística, tanto pelas imagens, quanto pela música que cultuam a plasticidade dos corpos dos atletas em movimento. Mas é fato que de pronto, o expectador é fustigado pela realidade que compunha o pano de fundo da barbárie do nazismo. Para alguns críticos e cinéfilos, “Olympia” transcende à política. É um filme para cinéfilos, para fãs de esportes olímpicos, jornalistas, historiadores e pesquisadores. Como descreveu a crítica norte-americana Pauline Kael: “Olympia é uma elegia sobre a juventude de 1936: ali está ela em seu desabrochar, dedicada aos mais altos ideais do desportismo – aqueles jovens que cedo demais iriam se matar uns aos outros…”.

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